HIPERTENSÃO, PORQUE SE PREOCUPAR ?
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Apenas um em cada 10 brasileiros
hipertensos está com a pressão arterial controlada,
motivo de alerta para leigos e especialistas que participarão
de congresso brasileiro, em Belo Horizonte.
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Um congresso médico diferente, com a participação
direta do público, além de um número expressivo de
especialistas estrangeiros (50) e brasileiros (150), que vão ministrar
cerca de 200 conferências.
A expectativa é de mais de 4 mil participantes de cursos, palestras
e apresentação de trabalhos científicos. O interesse
em torno do 17º Encontro Anual da Sociedade Brasileira de Hipertensão
(SBH) e do 18º Scientific Sessions da Sociedade Interamericana de
Hipertensão (IASH) é justificável, pois se trata
de "um inimigo oculto no organismo", dizem os médicos.
Essa doença silenciosa pode ser causada tanto por fatores genéticos
como ambientais, sendo que atinge cerca de 30% da população
brasileira. São 30 milhões de hipertensos no país
e apenas três milhões têm a pressão controlada.
Os que não seguem o tratamento estão sujeitos às
consequências graves da hipertensão, alerta o presidente
do congresso, o cientista Robson Santos, do Laboratório de Hipertensão
da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
De 5 a 8 de agosto, especialistas e leigos estarão envolvidos com
o tema, no Centro de Convenções Expominas, no Bairro Gameleira,
Região Oeste da capital, revelando dados preocupantes: apenas um
em cada 10 hipertensos brasileiros tem a pressão devidamente controlada,
o que eleva as taxas de morte por complicações causadas
pela hipertensão. A primeira causa de morte no Brasil é
o acidente vascular cerebral (AVC), sendo que 80% desses derrames são
devidos à hipertensão. Os outros 20% são provocados
por outras causas como aneurismas congênitos, tabagismo, colesterol
elevado, consumo excessivo de álcool, diabetes, arritmias cardíacas,
estresse, sedentarismo, obesidade e diabetes, sempre ligadas à
hipertensão sem controle, explica o cardiologista Marcus Bolívar,
do Instituto de Hipertensão de Minas Gerais, que vai participar
do congresso.
A segunda causa de morte entre brasileiros é o
infarto do miocárdio, sendo que a hipertensão é responsável
por 50% das mortes. Quem tem pressão alta deve saber que ela pode
causar também insuficiência renal, com necessidade até
de diálise ou transplante de rins. É como se fosse uma praga
difícil de combater, pois a maioria dos hipertensos não
tem qualquer sintoma e quando aparece está quase sempre relacionado
a graves complicações cardíacas, cerebrais ou renais.
A resistência do paciente ao tratamento, que geralmente é
abandonado no meio do caminho, será exaustivamente debatida, pois
"a doença é crônica. E o tratamento para a vida
toda", explica Robson Santos.
Serão muitas as novidades, sendo que o público leigo poderá
medir a pressão arterial, a dosagem de glicemia no sangue, fazer
exame de fundo de olho e avaliação do índice de massa
corporal (IMC) e também participar de atividades de lazer e cultura
voltadas para o tema. "Com a Estação Saúde instalada
no Centro de Convenções do Expominas, estaremos saindo do
usual. Toda a família pode participar, pois haverá atividades
para crianças e adultos durante os quatro dias de realização
do congresso", adianta Robson Santos.
EFEITO BOMBA RELÓGIO
Gravidez e pressão alta podem provocar uma série de complicações,
entre as quais edema agudo do pulmão, insuficiência cardíaca
e tromboembolismo
Ele sofre, hoje, aos 72 anos, as consequências da hipertensão
não tratada devidamente ao longo do tempo. O professor aposentado
José Vicente de Andrade tem um vasto currículo acadêmico
que lhe consumiu tempo e trabalho. A saúde ficava sempre para depois,
mesmo sabendo que era hipertenso há muitos anos, talvez, “até
de nascença”, brinca ele. A pressão alta, aliada à
obesidade e ao tabagismo, foi responsável por uma série
de doenças como a miocardiopatia (dilatação do coração),
insuficiência renal e hipotireoidismo.
Mesmo tendo parado de fumar há 20 anos, emagrecer 13 quilos, atualmente
estar com a pressão controlada por medicamentos e por uma dieta
sob orientação de nutricionista, o coração
e o rim do professor já estão afetados. Quando procurou
a ajuda de um cardiologista, o quadro já era grave, mas como biógrafo
e coordenador da beatificação de padre Eustáquio,
continuou tendo fé e esperança. Negociou com ele: “Se
me matar, não vai ser canonizado”, diz, com a devoção
de quem já foi padre por 11 anos, mas desistiu do sacerdócio
em 1973, para se casar e ter dois filhos.
A partir do controle da pressão, com sete medicamentos –
“já cheguei a tomar 20” –, e de uma disciplina
monástica, o coração e o rim começaram a melhorar.
Ele reconhece que o avanço das pesquisas e os cuidados médicos,
além da tecnologia científica, o estão ajudando a
manter aceso o sinal verde da vida. “Saí do vermelho”,
constata o professor, que já teve a pressão em 16 por 11
e hoje está estabilizada em 12 por 8. Paralelamente, ele faz tratamento
com um nefrologista, pois apenas 30% dos rins funcionam.
Até a segunda gestação, a professora de ensino fundamental
Geralda Simone Oliveira Cunha Machado, de 44 anos, apresentava pressão
mais baixa, em torno de 10 por 6. Com o nascimento de gêmeos e uma
endometriose que a obrigou a retirar o útero, Simone ficou mais
ansiosa. “De repente, eu tinha quatro filhos para criar e muito
trabalho na escola. O corre-corre diário de levar, trazer e buscar
elevou minha pressão arterial a 16 por 9. Foi quando procurei um
cardiologista. Com o mapeamento da pressão arterial, entraram os
remédios e a pressão voltou ao normal.
ALTERAÇÃO
Apesar dos medicamentos e do controle periódico com o cardiologista
uma vez por ano, a pressão de Simone voltou a se alterar no ano
passado – consequência de perdas importantes na sua vida.
“Minha irmã morreu em um acidente de carro, na Argentina,
em missão governamental. Ela era a secretária nacional de
Ação Social, do ministro Patrus Ananias, sendo que três
dias antes meu pai tinha morrido. Foi um tremendo trauma. Estou lutando
até hoje para me recuperar, mas o estresse pelas perdas não
só fez a pressão subir de novo, como elevou o colesterol.
Agora, estou tentando me cuidar para ver se as coisas voltam ao normal”,
explica.
Com um controle médico rigoroso, Simone faz musculação
duas vezes por semana, mas confessa que a melhor terapia de sua vida é
quando volta para casa, no Jardim Canadá, em Nova Lima, onde tem
horta, galinheiro, quintal com muitas plantas, fogão de lenha,
cachorro e papagaio. “Optei por morar no Jardim Canadá para
ter mais tranquilidade. Passo o Viaduto da Mutuca e chego ao meu paraíso
particular”, diz. .
O que ocorreu com Geralda Simone é muito comum entre as grávidas,
que podem apresentar duas situações, de acordo com o obstetra
e professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Antônio Carlos Vieira
Cabral, um dos conferencistas do 17º Encontro Anual da Sociedade
Brasileira de Hipertensão (SBH) e do 18º Scientific Sessions
da Sociedade Interamericana de Hipertensão (IASH). “São
duas possibilidades de pressão alta nas gestantes. A primeira é
quando a mulher já é hipertensa e fica grávida. A
outra é uma mulher com saúde e pressão arterial normais
com hipertensão na gravidez, apresentando uma pré-eclâmpsia,
ou seja, uma hipertensão induzida pela gestação.”
Nas duas situações, segundo o médico, “o risco
é grande porque hipertensão e gravidez não combinam.
Tanto uma quanto a outra exigem muito do sistema cardiorrespiratório”.
A gestação em si já representa uma sobrecarga no
sistema cardiovascular. Uma mulher grávida exige 50% a mais de
trabalho do coração. “Na hipertensão, é
justamente o coração o órgão mais sobrecarregado.
Portanto, são duas situações que atingem o mesmo
órgão, provocando uma sobrecarga”, explica o obstetra.
De acordo com ele, “a mulher saudável suporta bem a sobrecarga
da gravidez, mas, quando já é hipertensa ou se torna durante
a gravidez, pode estar predisposta a complicações letais,
como edema agudo do pulmão, insuficiência cardíaca
e tromboembolismo. A hipertensão é a principal causa de
morte materna em todo o mundo. No Brasil, 20% a 30% das mortes de mulheres
até 40 dias depois da gestação são decorrentes
da hipertensão”.
Que as mulheres não se apavorem, porque há tratamento.
“Se a mulher já era hipertensa, o médico deverá
fazer um ajuste na medicação, pois alguns remédios
podem afetar o desenvolvimento do bebê. Na pré-eclâmpsia,
geralmente, é preciso antecipar o parto, o que deve ser feito assim
que o bebê tiver condições de vida fora do útero,
em torno de 7,5 meses.”
Um congresso médico que aborde a hipertensão arterial deve
necessariamente estudar a pré-eclâmpsia em mulheres grávidas,
geralmente mais jovens e na primeira gestação. É
por isso que o professor da Faculdade de Medicina da UFMG, o obstetra
Antônio Carlos Vieira Cabral, vai mostrar o elevado impacto social
em casos com desfechos desfavoráveis. “Além das perdas
de vidas humanas, há um impacto social, pois acomete mulheres em
plena idade reprodutiva. Elas estão em plena função
como mães e companheiras, o que gera uma desestruturação
familiar e emocional”, diz.
Em mulheres sadias que se tornam hipertensas com a gravidez, a causa
é desconhecida. Sabe-se que de três a quatro mulheres em
cada 100 grávidas poderão desenvolver a doença. O
quadro clínico é caracterizado por retenção
de líquidos (pernas, mãos e face inchadas), pressão
arterial alta e perda de albumina pela urina. Os casos mais graves associam
queixas de dor de cabeça, dificuldade de visão e convulsões
generalizadas.
Os fetos, por sua vez, acometidos pela doença passam a crescer
lentamente no útero e nascem pequenos e com baixo peso. Em alguns
casos pode ocorrer a morte do feto ou do bebê após o nascimento
prematuro e com baixo peso. As mulheres grávidas que apresentam
pré-eclâmpsia também estão sujeitas a riscos
grandes, apresentando quadros de insuficiência hepática e
renal, além de perda da função cardíaca. Os
caso s mais graves, associados a convulsões, podem levar ao coma
e à morte dessas mulheres.
30 MILHÕES DE HIPERTENSOS
O Brasil concentra população sujeita a infarto do miocárdio,
acidente vascular cerebral, insuficiência renal e diabetes
Há um distanciamento, um verdadeiro hiato entre o atual estágio
de conhecimento científico sobre prevenção e tratamento
e a adesão dos pacientes. “De nada adianta ter à disposição
milhares de remédios praticamente isentos de efeitos colaterais,
exames que detectam precocemente disfunções do organismo,
técnicas cirúrgicas avançadas de coração
e dos rins, se não houver a cooperação do paciente”,
constata o cardiologista Marcus Bolívar, do Instituto de Hipertensão
de Minas Gerais.
O médico cita o exemplo dos Estados Unidos, que, além de
apresentarem a maior taxa de sobrepeso e obesidade do mundo, têm
também vários fatores ambientais desfavoráveis, como
estresse e sedentarismo, mas, por outro lado têm uma população
que segue o tratamento médico. “Apesar de todos os riscos
expostos, a expectativa de vida dos norte-americanos é de 10 anos
a mais do que a dos brasileiros.”
No evento internacional de hipertensão, no Centro de Convenções
do Expominas, um dos destaques será a adesão do paciente,
devido às estatísticas alarmantes. “No Brasil, são
30 milhões de hipertensos, mas só 3 milhões têm
a pressão controlada. Os outros 27 milhões estão
sujeitos a todas as consequências graves da hipertensão,
como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência
renal, que pode levar à hemodiálise, além de propensão
à diabetes. E cerca de 50% dos diabéticos são hipertensos”,
alerta o pesquisador e presidente do congresso, Robson Santos.
No Brasil, segundo Marcus Bolívar, a maioria não segue
o tratamento, que demanda cuidados com a alimentação, atividade
física e uso contínuo de remédios. “As pessoas
prometem a si mesmas que vão emagrecer, fazer atividade física,
deixam de tomar os medicamentos e as doenças vão se agravando
silenciosamente. Outros não tomam porque temem os efeitos colaterais
e ainda alegam custo elevado dos remédios. Curiosamente, porém,
mesmo uma parcela significativa da população que tem acesso
aos remédios pela rede pública de saúde, também
apresenta baixíssima adesão ao tratamento.” Para ele,
esse comportamento é cultural. “Não aprendemos desde
cedo a tomar remédio, cultivar a saúde, prevenir e tratar
as doenças.”
O cardiologista explica que em 10% dos hipertensos a causa é chamada
de secundária, pois está relacionada a doenças específicas
das glândulas, dos rins, das artérias ou dos distúrbios
do sono. “Quando diagnosticadas a tempo, essas doenças podem
levar à cura da hipertensão, o que não ocorre com
os outros 90% de hipertensos, conhecidos como primários, cuja doença
é crônica e exige controle por toda a vida.”
APNEIA Entre o grupo de hipertensos secundários, destacam-se os
distúrbios da glândula suprarrenal, alterações
da circulação do rim e apneia obstrutiva do sono. O congresso
dará destaque à apneia do sono, que surge com o agravamento
da hipertensão em indivíduos obesos, que roncam e que fazem
pausas na respiração durante o sono. “As apneias provocam
uma estimulação do sistema nervoso, com aumento da pressão
arterial, além de risco de arritmias cardíacas, sonolência
diurna, falta de concentração, depressão e até
risco de morte”, avisa o cardiologista. O diagnóstico da
apneia é feito por meio da polissonografia, que aponta o número
de paradas respiratórias. “O tratamento inclui a exigência
de emagrecimento do indivíduo, placas ortodônticas e, na
maioria das vezes, o uso de máscaras de oxigênio, que ajudam
na respiração noturna”, diz Bolívar.
SAIBA MAIS
• Uma vez detectada a elevação contínua da
pressão arterial, o hipertenso deve seguir as orientações
médicas de forma regular
• Hipertensão pode ser definida como uma situação
na qual há uma contração das milhares de artérias
existentes no corpo humano e que provoca um aumento da pressão
hidrostática
• A pressão arterial considerada normal registra os seguintes
valores: 120x180mmHg
• Hipertensa é a pessoa que apresenta, de maneira constante,
pressão arterial acima de 140x90mmHg
• Os números referentes à pressão são
medidos em milímetros de mercúrio (mmHg). De maior valor,
o primeiro número se chama sistólico e corresponde à
pressão da artéria no momento em que o sangue é bombeado
pelo coração
• O de menor valor se chama diastólico e corresponde à
pressão da artéria no momento em que o coração
está relaxado depois de uma contração
• Prevenção é a palavra-chave da hipertensão,
o que inclui medida de pressão pelo menos uma vez por ano com técnica
adequada no consultório médico.
(Fonte: Instituto de Hipertensão de Minas Gerais)
SERVIÇO
17º Encontro Anual da Sociedade Brasileira de Hipertensão
De 5 a 8 de agosto, no Expominas
Informações:
www.sbhiash2009.com
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Fonte: Matéria publicada no Estado de Minas em 26/07/2009.
Mais informações acesse também:
www.sbhiash2009.com
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